Hepatite

Hepatite é qualquer doença inflamatória do fígado, seja ela causada por vírus, bactérias, fungos, parasitas ou substâncias químicas. Deste modo, podemos encontrar hepatites viróticas, bacterianas, parasitárias, tóxicas, alcoólicas e assim por diante.

Sob o ponto de vista clínico, as hepatites viróticas têm grande importancia. Alguns vírus têm predileção pelo fígado e são chamados hepatotrópicos. Os vírus A, B C , D e E são exemplos de vírus hepatotrópicos.

Outros vírus que podem causar hepatite, mas que não têm tropismo pelo fígado, são os vírus Epstein-Barr, citomegalovírus, herpesvírus e da febre amarela.

Todos os vírus hepatotrópicos causam lesões anatômicas semelhantes, ou muito parecidas, no fígado.


Existem diversas formas clínico-patológicas das hepatites:

  1. Hepatite aguda benigna (que pode ser ictérica ou anictérica)
  2. Hepatite fulminante.
  3. Hepatite crônica (das quais há aquelas de curso mais brando e outras mais graves).

Existem ainda indivíduos que podem ser portadores sãos do vírus da hepatite. São aqueles que albergam o vírus no seu organismo, mas não apresentam sintomas clínicos da doença. Estes casos são importantes pois como não há sintomas da doença, eles podem transmitir inadvertidamente o vírus por contato sexual, doação de sangue ou de órgãos.

Médicos, dentistas, técnicos de laboratório, enfermeiros e pessoal em atividade nos bancos de sangue correm risco particularmente elevado de contaminação. Médicos (principalmente cirurgiões) ou dentistas portadores do vírus da hepatite, podem transmiti-lo para os seus pacientes no curso de algum tratamento


Características dos Vírus Hepatotrópicos

Vírus AVírus BVírus CVírus E
Ácido NucleicoRNADNARNARNA
TransmissãoFecal-oralParenteral/sexualParenteralFecal-oral
Doença fulminanteRaraRaraRaraGrávidas
CronicidadeNãoSim 1-10%Sim 50-90%Não
MalignidadeNãoSimSimNão
VacinaSimSimNãoNão

O vírus D só causa doença quando associado ao vírus B.


A hepatite aguda benigna, como diz o nome, é uma doença aguda de evolução benigna e tem as fases de incubação, fase pré-icérica sintomática, fase ictérica sintomática e fase de convalescença.

Macroscopicamente caracteriza-se por aumento do fígado, que se apresenta avermelhado ou esverdeado.

Microscopicamente apresenta:

  1. Tumefação dos hepatócitos.
  2. Necrose dos hepatócitos. Esta geralmente é focal (necrose de hepatócitos isolados ou em pequenos grupos), mas pode ser mais extensa. Os hepatócitos necroticos aparecem sob a forma de corpúsculos de Councilman (pequenas esferas fortemente eosinofílicas, geralmente anucleadas), ou sofrem lise completa e desaparecem.
  3. Desorganização da arquitetura lobular, como conseqüência da necrose.
  4. Regeneração dos hepatócitos, como conseqüência da necrose.
  5. Hipertrofia das células de Kupffer, que fagocitam restos celulares.
  6. Colestase (estase da bile), como conseqüência da tumefação celular.
  7. Infiltrado inflamatório mononuclear dos espaços porta e dos lóbulos.

Raramente o patologista tem a oportunidade de examinar macro ou microscopicamente um fígado com hepatite aguda benigna, uma vez que a doença tem curso brando, não necessitando de biopsias nem causando a morte.


A hepatite fulminante, como o seu nome sugere, tem um curso rápido e desfavorável, muitas vezes culminando com o óbito do paciente em 4 a 8 semanas.

Macroscopicamente o fígado encontra-se muito diminuído de tamanho (pesando metade do normal), mole, de cor vermelho-escura ou esverdeada, muitas vezes apresentando áreas escuras de necrose, alternadas com áreas mais claras, em que o parênquima está conservado, e é envolto pela cápsula de Glisson enrugada. Quando o paciente sobrevive por um tempo um pouco maior, podemos perceber nódulos resultantes da regeneração dos hepatócitos, que porém não se organizam em lóbulos. Neste caso podemos dizer que o paciente tem hepatite sub-aguda, que também não tem bom prognóstico.

Na hepatite fulminante, a característica microscópica que domina o quadro é a necrose, que é extensa, lesando lóbulos completos, sendo por isto chamada de necrose maciça. A reação inflamatória é mínima, o que leva alguns autores a denominar estes quadros como necrose hepática maciça. Clinicamente estes pacientes apresentam uma deterioração rápida do seu quadro, entrando em coma hepático, desenvolvendo hemorragias e, muitas vezes, evoluindo para o óbito.


A hepatite é considerada crônica quando persiste por mais de 6 meses, sem desaparecimento dos sinais e dos sintomas clínicos. Os virus B e C (principalmente o último), reações a drogas, doenças auto-imunes, doença de Wilson, deficiencia da alfa-1-anti-tripsina, cirrose biliar primária, são capazes de causar hepatites crônicas. Estas têm importância não só pelo desconforto que causam ao paciente, mas principalmente pela possibilidade de evoluirem para a cirrose hepática (cirrose hepática é uma hepatopatia crônica em que há subversão da arqueitetura lobular hepática com a formação generalizada de nódulos de hepatócitos, envoltos por fibrose) e, no caso das hepatites por virus B ou C, para o hepatocarcinoma (neoplasia maligna primária do fígado, formada por hepatócitos).

Histologicamente a hepatite crônica é caracterizada pela associação de inflamação portal, inflamação lobular e necrose dos hepatócitos. O infiltrado inflamatório é de células mononucleares e a necrose pode atingir pequenos grupos de hepatócitos periportais (necrose em saca-bocado=piecemeal necrosis) ou ser mais extensa e ligar espaços porta adjacentes ou espaços porta a veias centro-lobulares (necrose em ponte). Classicamente foram reconhecidos dois tipos histológicos de hepatite crônica: a hepatite crônica persistente e a hepatite crônica agressiva. Atualmente esta classificação entrou em desuso e prefere-se classificar as hepatites crônicas levando-se em conta os dados clínicos, sorológicos (carga virótica e anticorpos) e morfológicos.

Nas hepatites crônicas há destruição de grupos de hepatócitos por um tempo prolongado e estes muitas vezes são substituidos por cicatrizes conjuntivas.
Sob o ponto de vista morfológico devemos notar:

O grau de atividade da hepatite crônica varia de 1 a 4 (atividade mínima, atividade leve, atividade moderada, atividade acentuada).
O estágio varia de 1 a 4 (sem fibrose, fibrose peri-portal, fibrose septal, cirrose).

Com o passar do tempo, há modificação da estrutura dos lóbulos hepáticos, que são atravessados por cicatrizes fibrosas, prejudicando a vascularização dos hepatócitos, o seu funcionamento, a drenagem biliar e o escoamento do sangue.
Neste momento o paciente passa a ter uma cirrose hepática.

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